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Quando apostar deixa de ser diversão: os impactos das bets na saúde mental e na vida dos brasileiros

Entre a expectativa de ganhar e a dificuldade de parar, as apostas online podem comprometer a saúde emocional e o orçamento familiar. Especialistas ouvidos pelo Manchete Rio explicam os riscos, os mecanismos que estimulam o jogo e os caminhos para a prevenção.

Foto: Reprodução

Tudo pode começar com uma aposta de poucos reais. Um jogo de futebol, uma propaganda no celular, a possibilidade de ganhar algum dinheiro sem sair de casa. Mas e quando a aposta não termina depois do resultado? Quando perder significa tentar novamente e ganhar também não é motivo para parar? É nesse momento que uma atividade associada ao entretenimento pode assumir outra dimensão. Para entender os impactos das bets na saúde mental, no comportamento e na vida financeira dos brasileiros, o site Manchete Rio ouviu especialistas em psiquiatria, psicologia e economia.

Esta é a segunda reportagem da série especial sobre as apostas online, tema que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) e colocou em discussão os interesses econômicos envolvidos na atividade, os riscos para a população e o papel do Estado na proteção dos consumidores.

Por trás dos números movimentados pelas plataformas, existe uma questão que merece atenção: o que acontece quando a esperança de ganhar começa a custar mais do que o dinheiro apostado?

Quando ganhar também não é suficiente

Você já ouviu falar em ludopatia? O termo é utilizado para designar o transtorno do jogo, uma condição de saúde mental caracterizada pela dificuldade de controlar o comportamento de apostar, mesmo diante de consequências negativas.

A psiquiatra Gabriela Goldstein, especialista em ludopatia, explica que o principal sinal de alerta aparece quando a pessoa percebe que está perdendo o controle. Ela sabe que continuar apostando pode trazer prejuízos, mas não consegue interromper o comportamento.

E há um detalhe importante: ganhar também não significa que o jogo vai terminar.

Segundo Gabriela, pessoas que desenvolvem o transtorno podem continuar apostando mesmo depois de recuperar o dinheiro perdido ou conquistar uma quantia significativa. A expectativa de obter mais ganhos alimenta a continuidade das apostas, até que os recursos se esgotem.

“Ele perde o controle, ele tem uma compulsão incontrolável de jogar”, explica a psiquiatra.

A médica relata que, depois das apostas, podem surgir sentimentos de culpa, remorso, incapacidade e frustração. Ainda assim, esses sentimentos nem sempre são suficientes para impedir uma nova tentativa.

Na avaliação de Gabriela, a dificuldade de parar, mesmo quando a pessoa reconhece os prejuízos, é um dos aspectos mais preocupantes da dependência.

Mas o que leva alguém a continuar apostando depois de perder? Se a psiquiatria ajuda a compreender os sinais do transtorno, a psicologia procura explicar o que acontece entre uma aposta e outra.

A próxima aposta pode resolver tudo?

Imagine alguém que perdeu dinheiro e decide tentar mais uma vez. A justificativa parece simples: recuperar o prejuízo. Mas, por trás dessa decisão, pode existir algo mais complexo do que uma conta que não fechou.

O psicólogo Robert Prickril explica que, muitas vezes, a possibilidade de ganhar ocupa um espaço maior na imaginação do apostador do que o risco de perder.

Segundo ele, a pessoa começa a pensar no que poderia fazer com aquele dinheiro, nas contas que conseguiria pagar ou nas mudanças que poderia realizar na própria vida.

Sob uma perspectiva psicanalítica, Robert observa que a decisão de apostar também pode envolver desejos, expectativas e fantasias. A promessa de conquistar algo que parece distante acaba ganhando mais força do que a avaliação das probabilidades de perda.

O problema pode se intensificar quando o resultado não é o esperado.

De acordo com o psicólogo, algumas pessoas encontram dificuldade para aceitar o prejuízo e passam a acreditar que uma nova aposta poderá corrigir o resultado anterior. Em vez de encerrar a experiência, tentam recuperar o dinheiro perdido.

“A aposta seguinte aparece como uma promessa de reparação”, afirma Robert.

Essa tentativa de recuperar perdas também aparece na descrição clínica apresentada por Gabriela Goldstein. A psiquiatra relata que, mesmo quando o apostador consegue recuperar o valor perdido, a dificuldade de controlar os impulsos pode levá-lo a continuar jogando.

É um movimento que ajuda a compreender por que o problema não se resume ao valor de uma aposta isolada. A questão está também na repetição do comportamento e na dificuldade de estabelecer limites.

O celular que facilita também estimula

Se antes determinadas modalidades de jogo exigiam deslocamento até um estabelecimento, hoje basta pegar o celular para encontrar uma plataforma de apostas.

Essa facilidade de acesso é um dos pontos destacados por Gabriela Goldstein. Segundo a psiquiatra, a disponibilidade das plataformas e a exposição frequente à publicidade dificultam o afastamento dos estímulos associados ao jogo.

A médica relata que alguns pacientes apresentam melhora quando conseguem reduzir o contato com esses estímulos, especialmente durante o tratamento. Entretanto, a exposição a anúncios pode despertar novamente a vontade de apostar.

Gabriela também chama atenção para ofertas promocionais e bônus, que podem funcionar como incentivos para o usuário voltar à plataforma.

Robert Prickril acrescenta outra dimensão a esse ambiente digital. Para o psicólogo, notificações, apostas em tempo real e facilidade para realizar depósitos reduzem o intervalo entre a vontade de jogar e a decisão de apostar.

Na avaliação dele, esses recursos podem dificultar o estabelecimento de limites, principalmente quando a pessoa já apresenta problemas para controlar o comportamento.

E não são apenas os aplicativos de apostas que entram nessa discussão.

Robert observa que a associação das bets a jogadores de futebol, influenciadores digitais e personalidades admiradas pelo público pode transmitir uma sensação de familiaridade e confiança.

O psicólogo explica que, quando alguém vê uma pessoa de quem gosta divulgando determinada plataforma, pode interpretar essa associação como um sinal de segurança.

Para ele, o problema é que a publicidade costuma dar destaque à diversão e à possibilidade de ganhar, enquanto as consequências das perdas nem sempre recebem a mesma atenção.

Quem está mais vulnerável?

Afinal, qualquer pessoa pode desenvolver uma relação problemática com as apostas? Ou existem grupos que precisam de atenção especial?

De acordo com Gabriela Goldstein, a ludopatia pode atingir pessoas de diferentes condições financeiras, embora alguns fatores possam aumentar a vulnerabilidade.

A psiquiatra destaca os jovens, especialmente pela relação entre impulsividade e o amadurecimento das funções cerebrais responsáveis pelo planejamento e pelo controle dos impulsos.

Ela também menciona fatores emocionais e sociais. Pessoas que enfrentam dificuldades financeiras podem enxergar nas apostas uma possibilidade de conseguir dinheiro rapidamente. Já aquelas que convivem com ansiedade, depressão ou outros problemas de saúde mental podem recorrer ao jogo como uma forma temporária de escapar das preocupações.

Gabriela ressalta, porém, que a estabilidade financeira não impede o desenvolvimento da dependência. Segundo ela, o próprio acesso ao dinheiro pode facilitar a continuidade das apostas.

O psicólogo Robert Prickril também recomenda cautela ao analisar o comportamento dos consumidores.

Para ele, é necessário distinguir quem aposta ocasionalmente, respeitando os próprios limites, de quem começa a comprometer despesas da casa, esconder gastos ou sentir que não consegue parar.

Na avaliação do psicólogo, tratar todos os apostadores como pessoas dependentes ou irresponsáveis impede uma compreensão mais ampla do problema.

E os dados ajudam a dimensionar o tamanho desse universo.

Milhões de brasileiros e bilhões de reais

Um levantamento do Banco Central, divulgado em 2024, estimou que aproximadamente 24 milhões de pessoas físicas realizaram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas entre janeiro e agosto daquele ano.

O estudo apontou movimentações mensais da ordem de R$ 18 bilhões a R$ 21 bilhões e identificou participação expressiva de adultos entre 20 e 30 anos.

A economista Maria Clara Kappaun, mestranda da Universidade Federal Fluminense (UFF), utiliza esses dados para discutir a dimensão financeira das apostas no Brasil.

Ela chama atenção para uma diferença importante: o dinheiro transferido às plataformas não representa, necessariamente, o valor perdido pelos apostadores. Parte desses recursos pode retornar aos consumidores na forma de prêmios.

A pesquisadora também destaca que os levantamentos disponíveis ajudam a identificar a escala do fenômeno, mas ainda existem limitações para medir com precisão o impacto direto das apostas sobre o endividamento de cada família.

A questão, portanto, não é apenas quanto dinheiro circula nesse mercado. É também de onde ele sai e o que deixa de ser pago quando uma aposta ocupa o lugar de outra despesa.

Quando a aposta entra no orçamento da família

Todo mês, a renda precisa dar conta de uma série de compromissos: alimentação, aluguel, transporte, energia elétrica, educação e pagamento de dívidas.

Mas o que acontece quando parte desse dinheiro começa a ser destinada regularmente às apostas?

Maria Clara Kappaun explica que, nesse cenário, algumas famílias podem ser obrigadas a reduzir gastos essenciais ou recorrer ao crédito para manter suas despesas.

A pesquisadora analisa essa situação a partir de estudos sobre a fragilidade financeira das famílias, incluindo uma formulação desenvolvida por Montani Martins e pelas professoras Paula Sarno e Carmem Feijó, em 2023.

A abordagem dialoga com o trabalho do economista Hyman Minsky, que estudou como a capacidade de cumprir compromissos financeiros depende do dinheiro disponível para pagá-los.

Traduzindo para o cotidiano: não basta olhar quanto uma família deve. É preciso observar se o dinheiro que entra todos os meses é suficiente para pagar as contas.

Segundo Maria Clara, quando os gastos com apostas aumentam, a família pode enfrentar duas situações: cortar despesas necessárias ou contrair novas dívidas.

E, quando precisa recorrer a modalidades de crédito mais caras, como o cartão de crédito rotativo e o cheque especial, o problema pode crescer rapidamente.

Na análise da economista, a situação é especialmente delicada para famílias que já possuem pouca margem financeira para enfrentar imprevistos.

O prejuízo pode ultrapassar a porta de casa

Os efeitos econômicos das apostas também aparecem em estudos que procuram medir consequências para o consumo e a atividade produtiva.

Maria Clara Kappaun cita estimativas do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), que apontam uma transferência líquida de R$ 62,5 bilhões das famílias para as operadoras de apostas.

O estudo mencionado pela pesquisadora também estima possíveis efeitos negativos sobre a atividade econômica brasileira, em valores que variam de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões, conforme as hipóteses utilizadas.

Maria Clara explica que, quando parte da renda é direcionada às apostas, esses recursos deixam de estar disponíveis para outras despesas. Isso pode afetar o consumo de bens e serviços e, consequentemente, outros setores da economia.

Ela ressalta, entretanto, que é necessário diferenciar transferências financeiras, perdas efetivas dos apostadores e custos sociais mais amplos, como problemas de saúde mental, redução da produtividade e conflitos familiares.

São dimensões diferentes de um mesmo debate, que exigem métodos distintos de avaliação.

E há outro aspecto importante: medir o impacto econômico não significa presumir que todo dinheiro destinado às apostas seria automaticamente gasto em supermercados ou outros estabelecimentos.

Menos apostas, mais compras no supermercado?

A relação entre apostas e consumo ganhou destaque nas análises apresentadas pelo economista Cícero Pimenteira, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Ele cita um levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) que identificou crescimento nas vendas de alimentos em diferentes regiões do país após as medidas de restrição às apostas.

Segundo os números apresentados pelo professor, o consumo no Grande Rio cresceu 4% na primeira semana analisada e 6% na segunda. Em outras regiões, também foram registrados aumentos.

Na avaliação de Cícero, os resultados sugerem que parte dos recursos anteriormente direcionados às apostas pode estar retornando ao consumo de produtos essenciais.

O economista menciona itens como arroz, óleo, macarrão e café, que fazem parte das compras habituais das famílias brasileiras.

Para ele, o crescimento observado é um sinal positivo dos possíveis efeitos das restrições sobre o orçamento doméstico.

Mas essa interpretação exige uma ressalva: os números apresentados pelo professor mostram uma associação temporal entre as medidas e o comportamento das vendas. Sozinhos, não permitem concluir que a redução das apostas tenha sido a única causa do aumento do consumo. Outros fatores, como preços, renda e sazonalidade, também podem influenciar os resultados.

Cícero, no entanto, considera que a relação merece atenção, principalmente quando se observa a situação de famílias que já possuem pouco espaço no orçamento para despesas adicionais.

Educação financeira resolve?

Se apostar pode comprometer o dinheiro necessário para as contas da casa, ensinar a população a organizar melhor o orçamento seria suficiente para enfrentar o problema?

Para Cícero Pimenteira, não.

O economista defende a educação financeira como uma ferramenta importante para ajudar as pessoas a planejar despesas, poupar e estabelecer objetivos. Mas considera que ela, isoladamente, não consegue responder a todos os fatores envolvidos no comportamento de quem aposta.

“Porque as pessoas apostam num sonho, elas não apostam em algo real”, afirma.

Na avaliação do professor, a possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente pode parecer especialmente atraente para quem enfrenta dificuldades econômicas e possui poucas oportunidades de melhorar sua condição financeira.

Por isso, Cícero defende que a educação financeira esteja acompanhada de políticas de proteção e de condições que permitam às pessoas construir alternativas reais para alcançar seus objetivos.

Robert Prickril também considera necessário equilibrar liberdade individual e responsabilidade das plataformas.

O psicólogo defende informações claras sobre as chances de ganhar e perder, limites de depósitos, mecanismos de autoexclusão e fiscalização da publicidade, especialmente daquela que alcança os jovens.

Para ele, essas medidas podem ajudar a reduzir comportamentos de risco sem partir da ideia de que todas as pessoas que apostam apresentam dependência.

Gabriela Goldstein acrescenta que, nos casos de ludopatia, o acompanhamento profissional e a redução da exposição aos estímulos relacionados ao jogo são importantes para o tratamento.

A psiquiatra relata que o acesso frequente a propagandas e plataformas pode dificultar a recuperação de pacientes que tentam interromper o comportamento compulsivo.

Onde procurar ajuda?

Para quem percebe que as apostas começaram a provocar sofrimento ou prejuízos, buscar orientação profissional pode ser um primeiro passo.

A psiquiatra Gabriela Goldstein destaca a importância do tratamento individualizado, que pode envolver acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia e estratégias para reduzir o contato com situações que estimulem novas apostas.

Robert Prickril também chama atenção para a necessidade de acolhimento psicológico, especialmente quando a pessoa começa a esconder gastos, comprometer o orçamento ou perceber que não consegue interromper o comportamento.

No Sistema Único de Saúde (SUS), as Unidades Básicas de Saúde (UBS) podem funcionar como porta de entrada para avaliação e encaminhamento. Dependendo das necessidades de cada paciente, o atendimento também pode envolver serviços especializados da rede de saúde mental, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

O aplicativo Meu SUS Digital também disponibiliza orientações relacionadas aos problemas com jogos e apostas, incluindo recursos para avaliação inicial e acesso ao cuidado.

Muito além de uma aposta

O debate sobre as bets envolve empresas, contratos, publicidade e interesses econômicos. Mas as entrevistas realizadas pelo Manchete Rio mostram por que a discussão também precisa considerar o cotidiano de quem aposta.

Gabriela Goldstein explica os riscos da perda de controle e as dificuldades enfrentadas no tratamento da ludopatia. Robert Prickril analisa como expectativas, frustrações e estímulos digitais podem influenciar o comportamento. Maria Clara Kappaun apresenta os efeitos que os gastos com apostas podem provocar na organização financeira das famílias. Já Cícero Pimenteira chama atenção para a relação entre renda, consumo e a necessidade de políticas que vão além da educação financeira.

São perspectivas diferentes que ajudam a compreender um problema com consequências individuais, familiares e econômicas.

E existe uma pergunta que conecta todas elas: até que ponto a decisão de apostar é influenciada pelo ambiente em que o consumidor está inserido?

Na próxima reportagem da série especial, o Manchete Rio vai investigar como a publicidade, as redes sociais e os influenciadores digitais participam da construção da promessa de ganhar dinheiro e como essa comunicação pode afetar a percepção de risco dos apostadores.

 

Cláudia Rosa é Jornalista e mestranda em Administração do PPGAd da Universidade Federal Fluminense (UFF)