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O futebol brasileiro precisa parar. A cultura do abuso nos levou ao descontrole e ao flerte com a tragédia

Incidentes na Vila Belmiro precisam ser tratados como ponto de ruptura
Foto: Reprodução

Há momentos de crise em que é preciso ter um cuidado: não fazer pesar sobre os ombros das vítimas a responsabilidade de agir pela solução. No entanto, o descontrole e o flerte cotidiano com a tragédia que marcam o futebol brasileiro atual se arrastam há tanto tempo que desapareceram as razões para acreditar que autoridades públicas, judiciário ou dirigentes esportivos irão se mobilizar.

Restam os jogadores, vítimas cotidianas do ambiente tóxico e violento em que se transformou futebol, como alternativa final. Se agirem como classe, em solidariedade aos companheiros já abusados e em reconhecimento ao estado de permanente ameaça que vivem, os atletas têm poder de iniciar um movimento por mudanças estruturais. Antes que nos reste apenas lamentar uma vítima fatal. Falta pouco. Por ora, houve mais sorte do que juízo.

Que ninguém se engane: o futebol brasileiro precisa parar. Os jogos desta quinta-feira não deveriam ocorrer, tampouco os do fim de semana. Os incidentes da Vila Belmiro, desde a véspera, precisam ser tratados como um ponto de ruptura. Não são os primeiros, não serão os últimos. A cena dos jogadores do Corinthians confinados num ônibus, obrigados a voltar a São Paulo por falta de garantias para que desembarcassem e entrassem no hotel que os hospedaria, é uma indignidade. Assim como é indigno ver atletas do Santos acuados, obrigados a correr para o vestiário tentando evitar que uma bomba os atingisse.

Só uma ação conjunta dos jogadores, interrompendo atividades, irá dar o tom da gravidade do que estamos assistindo. Está instalada no futebol brasileiro uma cultura do abuso contra os profissionais do jogo. Uma normalização da agressão, seja ela verbal ou física. E transformações culturais dificilmente ocorrem sem choques de realidade. Só uma medida radical colocaria em xeque todo o sistema: o calendário não suporta adiamentos de jogos, completar os campeonatos seria desafiador, as entidades estariam contra a parede e precisariam agir.

Num dia, são os jogadores do Atlético-MG ameaçados, constrangidos na porta do CT. No outro, são os do Fluminense, do Flamengo, do Corinthians, sem falar nos ataques à sede do Vasco. Até que vieram os rojões no estádio do Santos. Palco onde, há um ano, Cássio foi agredido e a punição foi bem branda. É importante entender como chegamos a este ponto. Porque se a fotografia do momento é assustadora, a construção do descontrole atual é uma história que atravessa décadas.

Escolhemos acreditar que estádios de futebol são territórios de leis próprias, porque a paixão justificava qualquer comportamento. Do pai que autoriza a criança a falar palavrão e xingar o juiz aos extremos do racismo, da misoginia, da homofobia. Instalada a cultura de permissividade, o futebol perdeu qualquer rédea da situação. Porque o jogo não é uma ilha numa sociedade cada vez mais agressiva, intolerante. Mas revelar-se como um mero reflexo da realidade vivida fora dos limites do estádio não isenta o futebol de tentar entender por que ele se permitiu ser depositário de todas as patologias do mundo moderno; por que o ambiente do jogo se tornou tão convidativo; e por que os profissionais se tornaram alvos nos quais se descontam todas as frustrações cotidianas.

Por conveniência, em nome da tal paixão e como um alívio das tensões, terminamos nos convencendo de que o atleta de futebol é o único trabalhador obrigado a considerar normal ter o xingamento, a ofensa, como parte do cotidiano de sua atividade: o abuso direcionado a ele ou à família dele. Normalizamos crimes de toda ordem. No intervalo da fatídica noite de quarta-feira na Vila Belmiro, bem antes dos rojões serem lançados no campo, os jogadores do Santos iam para o vestiário enquanto dezenas de cidadãos ensandecidos, o ódio traduzido em suas expressões, aproximavam-se do alambrado para gritar ofensas num tom raivoso, num ataque de fúria.

A relação com o futebol se edificou sobre estes pilares: ou o profissional entrega resultado, ou parte da plateia se vê no direito do abuso, seja verbal ou físico. E parte da falta de ação dos atletas como classe, até hoje, tem como pano de fundo a cultura do medo.

Na temporada passada, ônibus apedrejados ou alvos de bombas caseiras levaram atletas a hospitais, um deles com ferimentos que, por questão de milímetros, não lhe tiraram a visão. Neste ano, faltou pouco para um rojão provocar ferimentos que poderiam ser graves. O futebol não pode ser uma espécie de reality show em que a plateia vê homens colocarem em disputa não apenas três pontos: mas o direito de, por alguns dias, não terem sua integridade física ameaçada, poderem circular com seus familiares nas ruas, entrarem num restaurante ou até poderem desembarcar num aeroporto sem que grupos de justiceiros descontem neles a violência represada de uma sociedade doente.

É claro que o componente da paixão ainda está lá. Mas quando o resultado de um jogo não provoca mais tristeza, mas apenas raiva, fúria e violência, é porque cruzamos uma fronteira perigosíssima. Enquanto permitíamos que estádios fossem terras sem lei, o mundo ao redor das arenas se transformava, a intolerância crescia e a sociedade se tornava mais e mais agressiva. Claro que o imenso guarda-chuva do futebol, capaz de abrigar todo tipo de comportamento violento com a benevolente justificativa da paixão, sofreria as consequências.

Os jogadores estão acuados, mas ainda assim são um elo forte na engrenagem do jogo. Se é evidente o risco de um deles ficar exposto ao se colocar como líder de uma crise, ficou provado que é possível uma mobilização de classe, como foi feito quando conseguiram modificar trechos da nova lei geral do esporte. Agora não se trata de dinheiro, mas de lutar para que ninguém morra. Porque, se não aconteceu até agora, não foi porque o futebol é um lugar seguro. Foi apenas por sorte.