As tensões entre Rússia e países europeus aumentaram após a Alemanha atribuir a Moscou a responsabilidade pelo envio de um drone carregado com explosivos ao Aeroporto de Leipzig/Halle. O governo russo nega envolvimento e considera as acusações alemãs infundadas.
O episódio reforçou o alerta europeu para a chamada “guerra híbrida”, expressão usada para definir ações militares e não militares realizadas sem que haja um conflito aberto. Entre elas estão sabotagens, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e operações contra infraestruturas estratégicas.
O ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, afirmou que o episódio em Leipzig segue um padrão de operações híbridas russas na Europa. O aeroporto participa de operações logísticas de apoio à Ucrânia.
Em meio à crise, Alemanha e Rússia fecharam centros culturais mantidos pelo outro país. O embaixador dos Estados Unidos na Otan, Matthew Whitaker, classificou o incidente no aeroporto alemão como uma das ações híbridas mais preocupantes já registradas na Europa.
França anuncia reforço na proteção de instalações
O presidente da França, Emmanuel Macron, também alertou para a intensificação das ameaças. Na sexta-feira (18), ele anunciou a elaboração de um plano para reforçar a proteção de infraestruturas críticas e instalações das indústrias de defesa e tecnologia contra drones e ataques cibernéticos.
Macron afirmou que as ações teriam como objetivo intimidar os países europeus e reduzir o apoio à Ucrânia.
O alerta ocorre em meio a uma série de episódios investigados em diferentes países. Incêndios suspeitos foram registrados em instalações ligadas à defesa da Itália à Estônia, enquanto drones supostamente relacionados à Rússia foram detectados nas proximidades de instalações militares, aeroportos e outras infraestruturas críticas.
Moscou nega envolvimento nos episódios atribuídos ao país. O presidente Vladimir Putin também afirma que a Rússia não pretende atacar a Europa.
Casos aumentaram desde a invasão da Ucrânia
Um levantamento do centro de estudos Globsec identificou 151 casos de atividades atribuídas à Rússia na Europa entre fevereiro de 2022, quando começou a invasão em larga escala da Ucrânia, e fevereiro de 2026. O estudo aponta que o número real pode ser maior.
Entre as ações analisadas estão tentativas de assassinato, incêndios criminosos, sabotagens, vandalismo e distúrbios públicos. Segundo o levantamento, países que apoiam militarmente a Ucrânia aparecem entre os principais alvos.
A Polônia, importante corredor logístico para o envio de equipamentos à Ucrânia, reforçou a segurança de infraestruturas depois de uma explosão em uma ferrovia, em novembro de 2025, classificada pelo governo polonês como sabotagem. Até 10 mil militares foram mobilizados, e o país também investiu em sistemas de defesa contra drones.
Desinformação também preocupa governos
As suspeitas de operações híbridas não se restringem a ataques físicos. Governos europeus também acusam redes ligadas à Rússia de utilizar contas falsas nas redes sociais, informações fabricadas e conteúdos produzidos com inteligência artificial para disseminar desinformação.
França e Alemanha estão entre os países que investigam possíveis operações de influência política. Especialistas apontam que uma das estratégias seria explorar divisões internas e ampliar a desconfiança da população nas instituições.
Outra mudança identificada é o recrutamento pela internet de cidadãos sem vínculos formais com os serviços de inteligência russos. Segundo a Globsec, 95% das 172 pessoas identificadas em ataques relacionados à Rússia eram cidadãos comuns sem ligação formal com agências de inteligência do país.
A estratégia dificultaria a atribuição direta das ações ao Kremlin.
Otan e União Europeia reforçam resposta
A Otan e países da União Europeia afirmam que estão ampliando o compartilhamento de informações de inteligência, a proteção de infraestruturas críticas e as sanções contra pessoas, organizações e embarcações relacionadas à Rússia.
Especialistas avaliam, porém, que as operações híbridas podem continuar avançando justamente por permanecerem abaixo do nível de um confronto militar direto entre Rússia e Otan.
O risco, segundo os analistas, está na possibilidade de uma escalada não planejada. Incidentes com vítimas civis ou danos a estruturas estratégicas poderiam provocar uma resposta mais ampla e aumentar o risco de confronto.
Apesar do aumento das tensões, os especialistas ouvidos avaliam como improvável uma guerra direta entre Rússia e Otan. A preocupação maior é com a continuidade de sabotagens, operações cibernéticas e campanhas de desinformação capazes de pressionar os países europeus sem desencadear formalmente um conflito.






