A necessidade de buscar uma fonte adicional de renda faz parte da realidade de seis em cada dez moradores de dez grandes capitais brasileiras. Nos últimos 12 meses, 60% dos entrevistados recorreram a “bicos” para complementar o orçamento familiar, apesar de indicadores oficiais apontarem avanço do rendimento médio do trabalho no país.
Os dados são da pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) em parceria com a Ipsos-Ipec. O levantamento mostra que serviços gerais, como faxinas, reformas, manutenção e jardinagem, estão entre as atividades mais procuradas por quem precisa reforçar os ganhos.
A participação desses serviços entre os trabalhos extras varia de 54% em Belo Horizonte a 68% em Goiânia.
Renda fica estagnada para 45% dos entrevistados
Além da elevada procura por trabalhos complementares, a pesquisa revela que boa parte dos moradores não percebeu melhora no orçamento. Para 45% dos entrevistados, a renda permaneceu no mesmo nível do ano anterior. Outros 31% afirmaram ter sofrido redução, enquanto 18% registraram aumento.
A percepção de melhora foi maior entre integrantes das classes A e B: 24% desse grupo declararam aumento da renda.
Os resultados contrastam com indicadores nacionais do mercado de trabalho. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, apontam rendimento médio de R$ 3.932,45 no país. A massa de rendimentos, que corresponde à soma dos salários e demais rendimentos provenientes do trabalho, alcançou R$ 374,819 bilhões no primeiro trimestre.
A percepção de crescimento da fome e da pobreza nas capitais, por sua vez, recuou de 66% para 59%. Mesmo com a redução, a maioria dos entrevistados continua percebendo aumento da miséria na cidade onde vive.
Alimentação é apontada como maior peso no orçamento
Entre as despesas domésticas, a alimentação aparece como a principal preocupação. Para 47% dos entrevistados, os gastos com comida são os que mais comprometem o orçamento. A moradia aparece em seguida, mencionada por 27%, enquanto as despesas com saúde foram apontadas por 11%.
A pressão sobre o orçamento também provocou mudanças na mesa das famílias. Os entrevistados relataram aumento do consumo de ovos e redução nas compras de carnes, laticínios e produtos hortifrutigranjeiros, numa tentativa de substituir itens por alternativas mais baratas.
Mais escolaridade não significa necessariamente renda maior
A pesquisa também identificou dificuldades de mobilidade social entre gerações. Embora 73% dos participantes tenham alcançado escolaridade superior à dos pais, apenas metade considera ter superado a geração anterior em renda ou qualidade da moradia.
O levantamento ouviu 3.500 internautas em Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. A coleta ocorreu em duas etapas, entre dezembro de 2025 e julho de 2026.
A pesquisa tem apoio da Fundação Grupo Volkswagen e cofinanciamento da União Europeia. A margem de erro é de dois pontos percentuais para a amostra geral e varia de quatro a seis pontos percentuais nos resultados de cada capital.






